30 de janeiro de 2012

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Mário sorri. Um sorriso triste, de quem disfarça uma mágoa passada. Tem um semblante constantemente sério, por isso o sorriso não se aguenta nos lábios, pouco habituados aquela expressão. Maria olha-o. Repara como a barba lhe cresceu nos últimos dois meses. Um emaranhado de pelos raramente cuidados. A roupa não está mais apresentável. Limpa, mas amarrotada e pouco pensada nas combinações entre cores e texturas. Estende-lhe a mão e cumprimenta-o. Como estás. Estou bem e tu. Bem, sim. A lembrança do outro. Dos trejeitos no rosto. O reconhecimento da mentira. Não estás nada bem. Pois, tu também não. A mão dela, na mão dele, separa-se. Afastam-se. Ele acende um cigarro enquanto caminha. Ela abre o chapéu de chuva vermelho.

30 de novembro de 2011

24 de novembro de 2011

Conta-se que um turista foi à cidade do Cairo, no Egipto, com o objectivo de visitar um famoso sábio.

O turista ficou surpreendido ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco.

- Onde estão os seus móveis? - perguntou o turista.

O sábio olhou ao seu redor e perguntou também:

- E onde estão os seus...?

- Os meus?! - surpreendeu-se o turista - Eu...estou aqui só de passagem!

- Eu também... - concluiu o sábio.

24 de junho de 2011

20 de junho de 2011

Alentejo...











A paisagem alentejana perde-se de vista. O silêncio interrompido apenas pelos sons dos animais. Faneca sorri timidamente, olhando por debaixo dos óculos escuros.

- Ó Faneca! – ruge uma mulher do outro lado da piscina – Anda cá à tua Guidinha, Faneca!

A mulher robusta, de pernas e braços roliços, ancorada na beira da água, rindo alto. Perto de si, um pássaro assustado, levanta voo.

18 de maio de 2011

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André chorou. Há muito que tal não acontecia. Os homens não choram, porra! Dentro do carro, mãos na cara, deixou que a angustia daqueles últimos dias o invadisse. Chegara ao fundo do poço e continuava a cair. Sem chão. Sem onde agarrar-se. Estilhaçado.

Maria parou o carro de repente no meio da ponte. O condutor de trás apitou-lhe nervosamente, ultrapassando-a enquanto esticava o dedo num gesto provocador. Alheia a tudo, Maria, abriu a porta lentamente e saiu. Na rua, caminhou. Chovia, mas ela não sentia nem o frio nem a água que teimava em cair abruptamente.

João saltou do comboio em andamento em pleno Alentejo. Olhou o céu estrelado e pensou: este é o primeiro dia da minha vida.

Ana, treze anos, deitada na cama, observava atentamente, há horas, a fotografia do seu actor favorito e sonhava com o dia em que se casaria com ele.

19 de abril de 2011

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Inês percorreu a rua principal da aldeia. aquela que vai desde o chafariz até à igreja. passou pelo único café da terra e espreitou rapidamente por entre as fitas penduradas de cor gasta. lá estava ele. sempre sorridente na ignorância de quem não tem noção da realidade. haviam passado cinco anos desde o acidente de automóvel e Inês nunca mais dormira uma noite inteira sem acordar em sobressalto. o sonho repetia-se. a terrível noite revivida em câmara lenta. como num filme. a João, acontecia o contrário, após o pesadelo as noites sucediam-se sempre calmas. mal se deitava adormecia profundamente e só acordava já o dia ia bem alto. deixara a escola. quando lhe apetecia ajudava o seu pai no trabalho da horta e com os animais. sempre sorridente. ao fim do dia, pai e filho, iam juntos à tasca do Xico beber uma fresquinha com os outros homens da Aldeia de Baixo. Inês também ali passava. todos os fins de tarde. inicio de noite. precisava de vê-lo e revê-lo na sua alegria de criança. talvez os sonhos tivessem fim. talvez a angustia passasse. e a sua vida pudesse recomeçar.